Saci-Pererê: o traquinas de uma perna só que mistura três culturas

Região
Nacional
Categoria
Criatura
Status
Folclore
Publicado em
Menino negro de uma perna só, com gorro vermelho e cachimbo, pulando em um redemoinho numa estrada de terra à noite, ao lado de uma placa de madeira e uma casa iluminada, sob lua cheia

Poucos personagens do folclore brasileiro são tão instantaneamente reconhecíveis quanto o Saci-Pererê: gorro vermelho, cachimbo na boca, uma perna só e um sorriso de quem está prestes a aprontar alguma. Mas por trás dessa imagem tão familiar existe uma das histórias de origem mais ricas, e mais brasileiras, de todo o folclore nacional: uma mistura direta de três culturas que formaram o país.

Quem é o Saci-Pererê

O Saci é descrito como um menino negro, pequeno, travesso, que se desloca pulando numa perna só e é capaz de se transformar em um redemoinho de vento. Seu gorro vermelho não é só um acessório: é a fonte dos seus poderes mágicos, e quem consegue tirá-lo dele ganha controle sobre suas ações.

Ele vive fazendo travessuras: dá nós na crina e no rabo de cavalos e outros animais, esconde objetos como dedais de costura, assobia de forma estridente pra assustar viajantes, troca o sal pelo açúcar e distrai cozinheiras até a comida queimar. Nada disso é maldoso o suficiente pra causar dano sério. É diabrura, não crueldade.

Uma origem que atravessa três culturas

Esse é o ponto mais fascinante da lenda do Saci: diferente da maioria das criaturas do folclore brasileiro, que têm uma origem predominante, ele é resultado direto da fusão entre tradições indígenas, africanas e europeias. Um espelho quase perfeito da própria formação cultural do Brasil.

A raiz indígena. A figura mais antiga por trás do Saci é uma entidade guarani chamada Yaci Yaterê (ou Jaxy Jaterê, dependendo da grafia), um curumim (menino indígena) protetor da floresta, com duas pernas, sem gorro e sem cachimbo, bem diferente do personagem que conhecemos hoje.

A transformação africana. Durante o período da escravidão no Brasil, mulheres escravizadas, contadoras de história habilidosas, teriam incorporado elementos de suas próprias tradições a essa figura indígena, dando origem ao Saci negro que se popularizou. É dessa influência que vêm a perna perdida em uma luta de capoeira, o cachimbo (o “pito”, como era chamado), e associações com entidades como Ossain, ligado às plantas e à cura em tradições de matriz africana.

O toque europeu. O gorro vermelho, elemento mais icônico do personagem, é atribuído por pesquisadores a influências europeias, possivelmente ligado ao folclore de duendes e trasgos de Portugal, ou até a heranças mais antigas do período romano, segundo hipóteses do folclorista Luís da Câmara Cascudo.

O resultado dessa mistura é um personagem que carrega, literalmente no corpo, a formação cultural do Brasil colonial: raiz indígena, corpo e hábitos africanos, acessório europeu.

Como (segundo a lenda) capturar o Saci

A tradição popular também deixou uma receita para quem quisesse tentar dominar o Saci: jogar uma peneira sobre um redemoinho de vento, já que é dentro deles que ele se desloca de um lugar para outro. Uma vez capturado, bastava retirar seu gorro vermelho para que ele perdesse os poderes e ficasse à mercê de quem o pegou, até ele conseguir, com muita esperteza, recuperar o gorro e escapar de novo.

De Monteiro Lobato ao Dia do Saci

Se o Saci é tão conhecido nacionalmente hoje, boa parte do crédito vai para o escritor Monteiro Lobato, que incorporou o personagem ao universo do Sítio do Picapau Amarelo, em 1921, apresentando-o a gerações de crianças brasileiras através da literatura.

Mais recentemente, o personagem ganhou até uma data oficial: o Dia do Saci, comemorado em 31 de outubro, resultado de uma articulação da Sociedade dos Observadores do Saci (Sosaci), fundada na cidade de São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo, em 2003.

Um símbolo mestiço do Brasil

Mais do que uma criatura travessa do folclore infantil, o Saci-Pererê é praticamente um retrato em miniatura da formação cultural brasileira: uma base indígena, moldada pela experiência e resistência da cultura africana, com um toque final europeu. Poucos personagens conseguem carregar tanta história de um país só em uma figura tão pequena, e ainda assim continuar sendo, acima de tudo, uma boa história pra contar antes de dormir.

Perguntas frequentes

Por que o Saci-Pererê tem só uma perna?

A versão mais popular, de influência africana, diz que ele perdeu a perna em uma disputa de capoeira. A versão indígena original, porém, o descrevia com duas pernas.

O Saci é indígena ou africano?

As duas coisas, na verdade: ele nasceu de uma entidade guarani chamada Yaci Yaterê (ou Jaxy Jaterê), ganhou a perna única, o cachimbo e a associação com a capoeira através da cultura africana, e o gorro vermelho é atribuído a influências europeias.

Como se captura um Saci, segundo a lenda?

A crença popular diz que é preciso jogar uma peneira sobre um redemoinho de vento (é ali que ele se desloca) e, uma vez capturado, tirar seu gorro vermelho, fonte de seus poderes mágicos.

Quando é comemorado o Dia do Saci?

Em 31 de outubro, data oficializada em São Paulo depois de uma articulação da Sociedade dos Observadores do Saci (Sosaci), fundada em São Luiz do Paraitinga em 2003.